O vazio nas recordações casa adentro
A
ausência preencheu o vazio,
Quando minha mãe foi embora...
Não clareou os raios da aurora:
no remanso na curva do rio...
e nas cumeeiras do casario...
Pois o vazio alonga distâncias.
Nos horizontes de estâncias...
Vagueio pela casa adentro,
Há recordação... há sofrimento...
E aromas da minha infância.
O vazio está na simplicidade,
Da sala e da rede na varanda.
Gotas de chuva na platibanda.
E a nossa dura realidade...
Um chalé nos confins da cidade,
E uma cozinha cheia de afetos.
Aconchego no lanche dos netos.
Uma avó de carinho e devoção!
Alma, fé, sonhos e coração.
A mãe de olhares discretos!
Arroz doce nas porcelanas,
E as deliciosas ambrosias,
Adoçavam os nossos dias.
Uma vida simples... mundana...
Eram preguiçosos os fins de semana!
Café preto e bolo de milho,
Nos olhos dos piás, um brilho,
E uma soneca na sala de estar.
Muito silêncio nas noites de luar,
Imensa saudade dos filhos.
O vazio na cuia do chimarrão,
E uma bengala esquecida,
Acusando a dor da partida.
Ouço o ruído da panela de pressão:
– no ofício de cozinhar o feijão –.
O vazio presente nos armários.
Nas prateleiras e utilitários,
Nos pacotes de erva para o mate,
Na mesa com a toalha escarlate,
E no bidê um esquecido rosário.
O vazio no sossego da almofada,
Jogada no sofá e coberta de pó.
Na cristaleira... cristais antigos dos avós.
Os castiçais... tocos de velas apagadas.
A fé da Santa Rita emoldurada,
No aguardo do terço em orações.
São infindas e tantas recordações:
nas gavetas guardanapos engomados,
panos de prato e talheres guardados,
e panelas esquecidas sobre os fogões.
O vazio está nas fotos antigas,
Dos avós nos portarretratos.
Na escultura em artesanato,
E no manuscrito para uma amiga.
O suave tom de uma cantiga,
No rádio no quarto de orar.
Este chalé foi o meu lugar!
E tudo será eternamente intocado.
Pois uma agressão neste legado,
Pode me fazer chorar...
O vazio está nos lírios e nas violetas
Distribuídos sobre o parapeito,
Nas orquídeas cuidadas com jeito,
E de uma inquieta borboleta.
Tremula minha mão na maçaneta,
E deixa marcas de solidão e alento,
Eu sigo nesse encantamento,
Vejo a surrada pantufa verde,
Um antigo quadro na parede...
Emoldura a penumbra dos aposentos.
Enfim... o vazio está na ausência,
Mas também está na saudade,
Uma doce lembrança que arde,
E que transforma as aparências.
Provoca inúmeras reminiscências.
Diante das agulhas e novelos de lã.
E a corrente de uma solene manhã,
Que entristece, conforta e acalma
Para saudosa mãe... de vida e alma,
Mãos postas para uma oração cristã.
1 1º Lugar na 9ª Tertúlia Maçônica da Poesia Crioula na categoria não-maçônica – Porto Alegre – 2024.

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