Cinco cevadas de chimarrão
Cinco cevadas de chimarrão1
I
O mate amargo e transcendental,
De um taura de fogo e fogueira,
Que nasce no silêncio matinal,
E sorve remansos de chaleira.
Cevado com a reverência ritual,
Da cultura do passado estradeiro.
Aquece o corpo e a alma provincial,
E se sorve na quietude de posteiro.
Encanta gestos sagrados de utopia,
Com a cuia e a bomba em harmonia,
E se oferta ao peão com excelência.
Renova os sabores de campo e mato,
Do simples, do concreto e abstrato,
E nos envolve com altiva essência.
II
Chimarrão é parceiro de jornada,
Nas milongas e causos nos serões,
Que se enleva na cuia colorada,
Nas querências e no fundo dos rincões.
Doce amargo no regaço da amada,
E ousadia numa ação que liberta,
Pássaros imponentes em revoadas,
Ou asas de uma mariposa inquieta.
É um remédio natural e caseiro,
Cura as angústias diante do braseiro,
E reacende o fogo-fátuo da cultura.
Habita eterno nos ranchos de Santa Fé,
Gente buena nas Missões de Sepé,
E traz nos tentos a natureza bravura.
III
Chimarrão: legado dos guaranis,
E vem de longe o ritual da cevada,
Nas mãos do veterano e do aprendiz,
No abrigo do rancho ou na tropeada.
Fonte de energia como um céu de gris,
E amplidão clara e evidente do dia,
Assim resplandece um vigoroso matiz,
Nas escaramuças repletas de rebeldia.
Cevado com erva buena ou caúna,
Um matear reflexões na noite lobuna,
Recuerdos de fé... e mistérios de heresia!
É arte de conversar consigo mesmo,
Nos pensamentos que se vão a esmo,
E retornam garbosos de valentia.
IV
O chimarrão é o verde da tradição,
A história viva e o seu legado,
De guerra, de paz e gratidão,
E de tropas, tropeiros e de gado.
Traz no cerne cortes de faca e facão,
Degolas de chimango e maragatos,
Exílio nos campos da escuridão,
Recuerdos de um pelejar acirrado.
Rotina de peleias no ferro branco,
E de quem ajoelhou diante do pranto,
Da sua amada cansada de guerra.
Nos desafios de um matear sem fim...
Sempre vislumbrando o clarim,
Que ecoam nos cantos desta terra.
V
Chimarrão é vida e humildade,
Sorvendo com leveza e ternura,
Nos largos campos ou nas cidades,
No canto dos livres ou na clausura.
Traz anseios de esperança e bondade,
Da evidência, certeza e da aventura,
Tem todo o clarão da imensidade,
E a trégua eterna de uma sepultura.
Se expressa nas rimas da poesia,
Na estrofe de verso triste... e alegria,
E no valsear das prendas e peões.
Traz a história do Sul do Continente,
Do pampa, dos rios e da sua gente,
Nas rodas de mate... nos galpões.
1 2º Lugar no XIV Concurso Literário Poesia Taveira Junior – EPC

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